Mais do que isso, diria que ele é um ser humano, na acepção mais literal possível

Consulta de médico cubano en Brasil

Por: @omniavincitsc

Queria escrever sobre o fim da participação dos cubanos no Mais Médicos, mas vejo que está rolando muita informação consistente sobre o tema, em contraste com as besteiras que andam repetindo. Colei aqui um trecho do meu livro-reportagem, a descrição de uma consulta que assisti em Juatuba-MG de um médico cubano com um casal de brasileiros. Foi um dos momentos inesquecíveis pra mim acompanhando esses médicos. Segue:

O consultório com paredes brancas onde Dr. Carlos atende não é muito grande, como a maioria dos consultórios médicos do SUS. Em sua mesa está um computador desligado e apesar do médico avaliar que seria útil ter um sistema informatizado para facilitar o trabalho, todas as fichas são preenchidas à mão. Em uma estante próxima à mesa há uma foto de duas crianças sorridentes com uma bandeira de Cuba e brinquedos. Ele conta que levou os brinquedos porque às vezes atende mães com crianças e os brinquedos ajudam a distraí-las. Às vezes está atendendo e as crianças ficam pelo consultório brincando.
A consulta é sempre minuciosa, o médico conversa, examina e ao final explica com calma e detalhadamente as recomendações. O paciente tem sempre abertura com ele, seja para tirar alguma dúvida sobre a receita, seu problema de saúde ou até mesmo para uma brincadeira.
Eu assisti algumas consultas do médico. A presença de uma terceira pessoa no consultório no início deixa os pacientes um pouco desconfortáveis. Depois eles se habituam à minha presença e ficam mais à vontade.
Um casal, Miriam e Cláudio entram juntos no consultório. Quem vai consultar é o marido, que é examinado de maneira meticulosa, o médico faz várias perguntas, Miriam também participa, ajuda a fornecer informações sobre o marido. No meio da consulta, em clima descontraído, Dr. Carlos faz brincadeiras com Cláudio, seu paciente há algum tempo, que trabalha como borracheiro. Brinca que passou perto de onde ele trabalha e o viu dormindo em um pneu. Cubano e brasileiros riem descontraidamente.
Eu, no cantinho, mesmo tentando ficar invisível também rio. Dr. Carlos se vira para mim, escreve alguma coisa em um receituário e diz que há um ditado em Cuba que diz assim: “quién solo de medicina sabe, ni de medicina sabe” (quem só de medicina sabe, nem de medicina sabe). Prossegue: “Ele é borracheiro. Eu, para atender meu paciente preciso saber que ele é borracheiro, que tipo de doenças podem afetá-lo, como fica a sua mão, etc. Eu tenho que conhecer a profissão de borracheiro. A mesma coisa o agricultor e por aí vai…”. Miriam me olha e reafirma sorrindo (ela já havia me dito em outra ocasião): “eu não te disse que o doutor Carlos é psicólogo?”. Mais do que isso, diria que ele é um ser humano, na acepção mais literal possível.